Recomendação do MP pela exoneração de Neto Leonelli expõe dimensão política do caso
JAÚ
Fagner Prioli
4/3/2026


Jaú sob a sombra de investigações: divergências entre GAECO e Promotoria local levantam questionamentos
As recentes movimentações envolvendo o Ministério Público em Jaú têm chamado a atenção não apenas pelo conteúdo das acusações, mas principalmente pelas aparentes diferenças de abordagem entre órgãos da própria instituição.
De um lado, o GAECO (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) conduz investigações de maior complexidade, sob sigilo, envolvendo possíveis esquemas estruturados no setor de loteamentos. De outro, a Promotoria local adota medidas administrativas e judiciais contra o executivo.
A recomendação de exoneração e seus fundamentos
Em março de 2026, ganhou repercussão a recomendação do Ministério Público para a exoneração do secretário municipal de Habitação e Planejamento Urbanístico, Neto Leonelli.
No documento, são apontadas, em tese, irregularidades como abuso de poder e retenção ilícita de TVO (Termo de Verificação de Obras) — documento essencial para a liberação e regularização de empreendimentos imobiliários.
Como exemplos, foram citados os empreendimentos Jardim Europa 2 e Jardim Botânico 1.
Decisões judiciais anteriores e possível divergência de interpretação
Um ponto que chama a atenção é que o Poder Judiciário já havia se manifestado anteriormente sobre esses mesmos empreendimentos.
Há decisões que apontam indícios de irregularidades, mas que, em determinados aspectos, também reconhecem a legalidade de atos praticados pelo secretário.
Essas decisões são anteriores à recomendação do Ministério Público, o que levanta questionamentos relevantes:
até que ponto esses elementos foram considerados?
Houve uma reavaliação jurídica ou uma interpretação distinta dos mesmos fatos?
O próprio documento do MP menciona a utilização de informações oriundas de “notícias”, ao mesmo tempo em que solicita “ampla publicidade” da recomendação — o que, por si só, contribui para a amplificação do caso na esfera pública e midiática
Empresas envolvidas e conexões societárias
Nos processos judiciais, os empreendimentos citados aparecem vinculados a diferentes empresas:
O Jardim Europa 2 foi representado pela imobiliária Terra Roxa Ltda
O Jardim Botânico pela empresa Paraíso Participações e Investimentos Ltda
Ambas possuem, segundo registros disponíveis, vínculos societários com o empresário Ailton Caseiro.
Esse ponto ganha relevância quando observado em conjunto com outras investigações em andamento.
O episódio trágico no Jardim Europa 1
Em janeiro de 2026, um fato trágico marcou a cidade:
uma criança morreu após se afogar em uma bacia de retenção de água localizada no Jardim Europa 1.
Relatos apontam que:
a sinalização no local seria precária
a estrutura já teria apresentado problemas anteriores
houve registro de rompimento com grande volume de água
há indícios recentes de erosão na área
Esses elementos, embora dependam de apuração técnica aprofundada, levantam questionamentos sobre a segurança e a execução da obra.
A atuação do Ministério Público no caso
Apesar desse cenário, ainda em janeiro, o Ministério Público ingressou com ação buscando obrigar a Prefeitura a aprovar o TVO do empreendimento.
Na ação, argumenta-se que as obras de infraestrutura estariam concluídas, invocando direitos fundamentais como vida, saúde e segurança.
A situação gera um contraste inevitável:
de um lado, relatos e apontamentos técnicos indicando possíveis problemas;
de outro, uma medida judicial do promotor para viabilizar a regularização do empreendimento.
O papel do promotor e a coincidência de atuações
Outro elemento que chama atenção é que o mesmo promotor responsável pela ação — Dr. Luis Fernando Rosseto — é também autor da recomendação de exoneração do secretário.
A coincidência de atuação em frentes distintas, envolvendo os mesmos contextos, levanta questionamentos sobre a condução dos casos, ainda que dentro das atribuições legais do cargo.
A investigação do GAECO e a Operação Terra Roxa
Paralelamente, o GAECO conduz investigações mais amplas, incluindo a Operação Terra Roxa, deflagrada em 2023.
Segundo informações da investigação, há apuração de possíveis irregularidades em diversos loteamentos da cidade.
Nesse contexto, o empresário Ailton Caseiro é apontado, em tese, como possível líder de uma organização criminosa ligada ao setor, envolvendo loteamentos e supostos esquemas de corrupção.
Importante destacar que essas apurações tramitam sob sigilo e ainda dependem de conclusão e eventual responsabilização judicial.
Outro ponto sensível: sugestão de contratação
A partir de print extraído da Representação nº 01.002312/2026, em trâmite na Corregedoria-Geral do MPSP, referente a uma conversa entre o promotor Luis Fernando Rosseto e o secretário municipal de Habitação e Planejamento Urbanístico de Jaú, Neto Leonelli, observa-se que o membro do Ministério Público teria sugerido a contratação do chamado “Grupo Atalla” como possível solução para um problema sanitário no município.
Segundo registros, esse grupo também teria ligação com o empresário Ailton Caseiro.
Embora sugestões não se confundam com determinações, o episódio levanta questionamentos sob a ótica administrativa, especialmente quanto:
ao dever constitucional de licitar
e à delimitação de competências entre os agentes públicos.
As investigações mais densas seguem sob sigilo, e a população de Jaú continua aguardando, com apreensão e expectativa, o desfecho de um conjunto de fatos que, há anos, impacta diretamente a cidade.
