CEI DO LIXO a investigação que começou atrasada
JAÚ
Fagner Prioli
3/17/2026


O debate sobre o problema do lixo em Jaú voltou ao centro da política local. Vereadores da oposição passaram a defender investigações e, em muitos casos, direcionam a responsabilidade diretamente ao prefeito atual.
Mas essa narrativa, embora conveniente no discurso político, ignora um ponto fundamental: a crise da gestão de resíduos no município não é recente — ela é histórica.
É preciso olhar para trás.
Há cerca de 16 anos, o lixão da cidade já havia sido interditado por órgãos ambientais, evidenciando que Jaú enfrentava dificuldades para dar uma destinação adequada aos seus resíduos. A partir dali, o município passou a operar com soluções alternativas, como áreas de transbordo e envio do lixo para outras cidades — um modelo mais caro e dependente de logística complexa.
Os problemas, no entanto, não pararam por aí.
Há aproximadamente 12 anos, a cidade enfrentou um episódio emblemático: cerca de 70 dias sem coleta regular de lixo. O acúmulo de resíduos nas ruas expôs, de forma clara, a fragilidade do sistema e a falta de planejamento na gestão do serviço.
Poucos anos depois, há cerca de uma década, o Tribunal de Contas do Estado apontou falhas graves na condução da limpeza pública. Entre elas, a condenação de contratos relacionados ao serviço, incluindo uma licitação de grande valor — que, atualizada, se aproxima de R$ 25 milhões. O episódio reforçou a percepção de que, além da falta de estrutura, havia problemas na forma como o serviço era administrado.
Outro fator estrutural agrava ainda mais a situação: Jaú não possui aterro sanitário próprio. Isso significa que, historicamente, o município depende do transporte de resíduos para outras cidades, elevando custos e tornando o sistema vulnerável a falhas operacionais.
A dependência de empresas terceirizadas também é uma constante ao longo dos anos. Em diversos momentos, contratos prometeram estruturas que não se concretizaram na prática — como a disponibilização de caminhões em número inferior ao previsto —, comprometendo diretamente a eficiência da coleta.
Mais recentemente, a própria prefeitura precisou recorrer à Justiça para viabilizar a compra de caminhões próprios, numa tentativa de reduzir essa dependência e recuperar o controle do serviço.
Diante desse histórico, torna-se difícil sustentar a ideia de que o problema do lixo em Jaú seja resultado de uma única gestão.
O que se observa é um acúmulo de decisões ao longo de anos — e até décadas — marcadas por falta de planejamento de longo prazo, soluções emergenciais e fragilidades na condução administrativa.
Transformar essa questão complexa em uma disputa política simplificada, com a busca por um único culpado, pode até gerar discurso, mas não contribui para a solução.
Se a intenção for, de fato, investigar o problema do lixo em Jaú, é necessário ir além do presente.
É preciso analisar contratos antigos, decisões passadas e políticas públicas que moldaram o cenário atual.
Afinal, mais importante do que apontar culpados é entender como o problema foi construído — e por que, até hoje, ainda não foi resolvido.
